Quando a aposentadoria vira recomeço: a história de João Sodré e a cachaça que preserva memórias
De ex-servidor público a guardião das tradições de Foz do Iguaçu, João transforma vivências, raízes e paixão em um projeto que une empreendedorismo, cultura e identidade no Mercado Público Barrageiro

Ao se aposentar em 2021, João Pereira Sodré percebeu rapidamente que o descanso não combinava com seu ritmo de vida. Depois de 28 anos como servidor público e uma rotina marcada por intensidade e responsabilidade, ele viu algo que o inquietou: muitos colegas, ao deixarem o trabalho, perderam o propósito e acabaram adoecendo. “A aposentadoria chegou, mas eu não queria ficar inativo. Eu precisava continuar em movimento”, lembra.
Foi dessa necessidade de permanecer ativo que surgiu um novo projeto de vida. João Sodré mergulhou em um estudo profundo sobre cachaças artesanais, dedicando dois anos a visitas, pesquisas, testes e conversas com produtores do Brasil inteiro. O propósito era encontrar uma bebida que carregasse a alma de Foz do Iguaçu — seu território, suas pessoas e suas histórias. Assim nasceu a Lendas das Cataratas, uma marca registrada, produzida no norte do Paraná, inspirada em uma receita tradicional de 45 anos e criada como símbolo da cultura e identidade da fronteira.
A nova fase empreendedora começou com o Lendas Bar, no Bairro Morumbi. Mais tarde, já consolidado como entusiasta da cultura da cachaça, Sodré decidiu expandir o negócio para o Mercado Público Barrageiro, espaço marcado por memórias da construção da Usina de Itaipu e pelo modo de vida dos moradores da época, além de ser a região onde morou com a sua família. “Através da cachaça podemos contar um pouco da história. Hoje apresentamos rótulos nacionais, importados e a nossa própria linha artesanal dentro do mercado”, destaca.
Resgatar a história
A Lendas das Cataratas não é apenas uma marca — é um projeto de memória. Ela carrega na identidade um resgate histórico que moldou Foz do Iguaçu: o período dos barrageiros, trabalhadores que vieram de todo o país para erguer a maior hidrelétrica do Brasil. João Sodré viveu essa era. Chegou à cidade em 1985 e trabalhou diretamente nas obras, em áreas profundas, 90 metros abaixo do nível do rio. “Eu vivi aquilo, não me contaram. Convivi com a rotina dos barrageiros, com os riscos, com os sacrifícios e com a força das pessoas que ajudaram a construir a cidade”, relembra.
Dessa vivência nasce o segundo capítulo da Lendas das Cataratas: uma nova linha de cachaças em homenagem aos barrageiros — não apenas de Itaipu, mas de todo o Brasil. Para Sodré, a homenagem é um ato de reconhecimento a milhares de trabalhadores que dedicaram a vida às grandes construções nacionais e deixaram como legado mais do que engenharia: deixaram histórias, famílias e identidade. “São histórias de coragem, famílias que se formaram, vidas que se transformaram. Foz do Iguaçu teria outro destino se não fossem essas pessoas.”
Atualmente em fase de registro e desenvolvimento, essa linha especial vai destacar não só o sabor, mas também elementos culturais e simbólicos do período histórico. A proposta é que cada garrafa carregue os valores que marcaram a vida dos barrageiros: resistência, força, união e pertencimento.
O Mercado como palco de encontros
Enquanto isso, o Lendas Bebidas se fortalece no Mercado Público como ponto de degustação e espaço onde turistas e moradores conhecem essas histórias engarrafadas. Com blends de Amburana, Carvalho, versões premium e extra premium, além de miniaturas pensadas especialmente para o turismo, João acredita que a cachaça pode se tornar um símbolo afetivo da cidade — assim como os barrageiros foram por décadas.
Para ele, empreender nesta fase da vida não é sobre retorno financeiro. É sobre propósito. É sobre deixar uma marca. “Meu propósito é deixar algo que conte a história da gente. O que vivi em Itaipu faz parte de quem eu sou e da cidade que temos hoje. A cachaça é só o meio. O que eu quero mesmo é homenagear quem fez tudo isso acontecer.”
O Mercado Público Barrageiro, onde João Sodré expande sua presença, se consolidou como um ponto de encontro que reúne moradores, turistas e famílias. Com eventos, música, gastronomia e experiências culturais, o espaço resgata memórias, fortalece vínculos e cria novas tradições. Para João, esse é o lugar ideal para manter a história viva. “Aqui dentro tem muita história. Aos poucos o mercado está ficando cheio de acontecimentos, e isso movimenta cada vez mais o nosso espaço”, afirma.
Texto: Silvana Canal
Foto fachada: Kiko Sierich
Foto João Sodré: Redação
