Mãe de criança autista entrega cartão com pedido de desculpas aos passageiros durante viagem de avião
Ao embarcar em um voo de João Pessoa para Brasília, a mãe que viajava com duas crianças, uma delas autista com grau 3, distribuiu bombom, protetor auricular e um cartão.
O que seria mais um voo para muitos dos passageiros que embarcaram de João Pessoa (PB) para Brasília (DF) com conexões para diversas outras cidades brasileiras, na última quarta-feira (09) à tarde, para Débora Melo se tornou um grande desafio. No embarque, já dentro do avião da Gol Linhas Aéreas, a Débora distribuiu para todos os passageiros pacotinhos que continham um bombom sabor morango, um par de protetor auricular moldável e um cartão. O avião era um Boeing 737 Max, modelo com capacidade para atender até 172 pessoas.
A distribuição desse pacotinho chamou a atenção de todos, afinal, seria ativação de alguma marca? Não era! Ao ler o cartão, todos tomaram conhecimento de que a Débora estava viajando com a mãe e duas filhas menores, uma delas, “autista com grau 3 de suporte não verbal”, que viajava sem o pai pela primeira vez. “Então, já peço desculpas antecipadamente por algum eventual incômodo que possamos vir a causar”, completava o texto do cartão.
O gesto da Débora é elogiável, mas abre uma ferida que somente as pessoas que têm algum parente ou amigo, aqui era uma filha menor, sentem no dia a dia na pele: o preconceito, a indiferença, a intolerância, a falta de sentimento, de empatia, a ignorância…
No Brasil, em 2025, haviam 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo dados do Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esse número representa 1,2% da população brasileira com dois anos ou mais. O Censo também aponta que a maior proporção de diagnósticos de autismo está entre crianças de 5 a 9 anos.
O pedido de desculpas também escancara o receio da reação das pessoas diante de situações que, hipoteticamente, venham a incomodar, em especial, em casos de voos como o desta quarta-feira, que teve a duração de um pouco mais de duas horas. A Débora não sabia qual seria a reação da filha, por isso o receio e a preocupação de informar aos outros passageiros para “não incomodar”.
Uma pessoa acometida de autismo grau três – muitos chamam de “grau severo” -, têm comportamentos restritos e repetitivos em algumas situações. Inflexibilidade de comportamentos causa interferência significativa no funcionamento em um ou mais contextos; Extrema dificuldade em lidar com a mudança; Comportamentos restritos e repetitivos interferem acentuadamente no funcionamento em todas as grandes esferas; Grande sofrimento ou dificuldade para mudar o foco ou as ações.
A filha da Débora precisa de apoio substancial nas tarefas do dia a dia. Ela tem graves déficits na comunicação e interação social e também nos padrões de comportamentos restritos e repetitivos. Na viagem até Brasília a filha dela não apresentou qualquer reação que viesse a chamar a atenção das outras pessoas, ou, como ela ‘temia’, não ‘incomodou’ ninguém.
Com Fábio Cardoso – Jornalista de João Pessoa/PB
