Passeio de mototurismo resgata viagem centenária entre Ponta Grossa e Antonina

Grupo com cerca de 60 motocicletas celebra 103 anos da pioneira rota histórica paranaense que marcou o motociclismo na América Latina.

O espírito pioneiro do motociclismo voltou a movimentar as estradas paranaenses com a realização de mais uma edição da Rota 01 Mototurismo. No último sábado, cerca de 60 motociclistas se reuniram para recriar o trajeto histórico percorrido originalmente em 1923 pela dupla Ricardo Wagner e Afonso Lange. A expedição homenageia a jornada centenária entre Ponta Grossa e Antonina, reconhecida como a primeira grande viagem documentada sobre duas rodas na América Latina.

A largada ocorreu no Monumento Marco Zero da Rota 01, situado em frente ao Planalto Select Hotel Ponta Grossa, espaço simbólico que preserva a memória da aventura. Para garantir o deslocamento seguro dos participantes ao longo dos mais de 400 quilômetros de percurso, o comboio contou com o apoio de forças municipais de segurança na área urbana e da Polícia Rodoviária Estadual durante os trajetos pelas rodovias e pela tradicional Serra da Graciosa.

Celebrando 103 anos da façanha original, o evento cruzou municípios como Palmeira, Campo Largo e Curitiba antes de alcançar o Litoral. A rota anual, resgatada em 2015 graças ao empenho e às pesquisas de entusiastas como o motociclista Carlos Eduardo Biazetto, reafirma no mês de agosto o valor do patrimônio histórico regional e consolida o caminho como um dos principais atrativos turísticos sobre duas rodas no Paraná.

Pesquisa permitiu reconstruir caminho original

Segundo Biazetto, o resgate da história envolveu pesquisas sobre as antigas rodovias e caminhos disponíveis no Paraná no início do século passado, permitindo reconstruir o percurso percorrido pelos pioneiros.

“Foi feita uma pesquisa, traçando a rota antiga e as rodovias que existiam naquela época. Desde 2015 estamos repetindo esse passeio como uma forma de homenagem, baseado também no espírito de empreendedorismo e no desafio que eles tiveram”, explica.

O contraste entre a viagem de 1923 e a estrutura disponível aos motociclistas atualmente é justamente um dos elementos que mais impressionam quem conhece a história.

“Eles fizeram um passeio por estradas péssimas, que não eram como as estradas que conhecemos hoje, com motos rudimentares, sem mapa, GPS, ABS, postos de gasolina e toda a estrutura que estamos acostumados a encontrar”, destaca Biazetto.

Para ele, Wagner e Lange foram verdadeiros pioneiros. “Eles foram aventureiros. Desde 2015, em agosto, a gente tende a repetir esse passeio, trazendo amigos e pessoas que são apaixonadas por essa história e que todos os anos vêm participar”, afirma.

Cerca de 60 motos participaram da edição de 2026

De acordo com Daniel Wagner, aproximadamente 60 motocicletas participaram da viagem deste ano, reforçando a adesão ao passeio histórico e a tradição que vem sendo mantida desde a redescoberta da rota.

O trajeto completo, considerando ida e retorno, supera os 400 quilômetros, o que transforma a experiência em um desafio especialmente para motociclistas que ainda não estão acostumados a percorrer grandes distâncias ou participar de comboios.

“Cada evento é um reencontro com amigos, com a história e também uma oportunidade de fazer novos amigos na estrada. Existem desafios pessoais que são vencidos, porque há pessoas que fazem essa rota pela primeira vez, que não têm tanto hábito de rodar em estrada, em grupos ou fazer uma viagem mais longa em um único dia”, explica Biazetto.

“Não é chegar, é estar na moto”

Essa sensação foi vivida pelo designer Rafael Zem, que participou pela primeira vez de uma viagem em um grupo tão numeroso.

Acostumado a fazer viagens sozinho ou acompanhado por poucos amigos, Rafael conta que a experiência em comboio trouxe uma percepção diferente.

“Você sente que faz parte de algo maior. Conhece gente nova e também tem mais segurança na estrada, porque está em um comboio de 40, 50, 60 motos. Você não está sozinho e as pessoas conseguem enxergar melhor o grupo”, relata.

Para ele, um dos pontos mais marcantes foi justamente poder aproveitar o percurso sem pensar apenas no destino.

“Você se preocupa menos com o caminho que tem que fazer e mais em estar no caminho. Acho que essa é a grande diferença de viajar de moto. Não é chegar, é estar na moto”, resume.

Rota passa por caminhos que muitos paranaenses ainda desconhecem

Um dos diferenciais da experiência é a utilização de trechos históricos que passam longe das principais rodovias utilizadas atualmente. Entre eles está a região da Estrada do Mato Grosso, em Campo Largo. Segundo Biazetto, muitos motociclistas participam do passeio sem imaginar que existem caminhos históricos tão próximos de Ponta Grossa.

“Todo ano vão 60, 70, 100 motos e sempre existem 20 ou 30 pessoas que nunca fizeram. Elas voltam impressionadas ao conhecer trechos próximos da gente que nem imaginavam que existiam, como a Estrada do Mato Grosso, em Campo Largo, uma região histórica, com construções antigas”, afirma.

Uma aventura que segue inspirando motociclistas

Para Biazetto, participar da Rota 01 também representa uma forma de colocar os desafios atuais em perspectiva. Motociclista desde 2013 e praticante de mototurismo, ele afirma que a aventura realizada por Wagner e Lange em 1923 continua impressionante mesmo para quem possui experiência em longas viagens.

“O que Wagner e Lange fizeram em 1923 foi uma coisa surreal. Eram duas pessoas saindo naquela época sem qualquer estrutura. O que eles fizeram até hoje impressiona e inspira os motociclistas”, afirma.

Ele lembra que os pioneiros enfrentaram situações que hoje seriam difíceis de imaginar em uma viagem programada.

“Eles enfrentaram estrada de terra, passaram por dentro de rio, ficaram sem combustível, tombaram a moto dentro do rio e desceram a Graciosa. Até hoje a Graciosa exige cuidado e, quando chove, nós nem fazemos esse trecho pelo risco”, conta.

História redescoberta em 2015

A preservação dessa memória ganhou força a partir de 2015, quando o levantamento histórico permitiu identificar e reconstruir o trajeto percorrido em 1923.O trabalho de Carlos Eduardo Biazetto foi importante nesse processo, especialmente na pesquisa, valorização da história e mobilização para transformar novamente o percurso em uma experiência sobre duas rodas.

Desde então, a viagem passou a ser repetida anualmente, sempre próxima à data da aventura original. Biazetto ressalta que a importância da Rota 01 vai além do motociclismo e também envolve a valorização da própria história regional.

“Muitas vezes o brasileiro não valoriza a própria história. A pessoa vai aos Estados Unidos fazer uma rota, uma montanha ou um trajeto e não prestigia um passeio que foi feito aqui, uma história como a nossa”, afirma.

Segundo ele, há registros documentais da viagem de Wagner e Lange, o que reforça o caráter pioneiro da aventura.

“Do México para baixo, ninguém tinha feito uma viagem como a deles de forma documentada. Eles são realmente pioneiros. Eu acho que hoje é uma rota que qualquer motociclista que se preze tem que ter no seu passaporte”, destaca.

Legado que atravessa gerações

Daniel Wagner também destacou que a edição deste ano conseguiu preservar o espírito do percurso original.

“Foi muito bom a gente poder fazer o roteiro original, ou o mais original possível. Ponta Grossa, Palmeira, Campo Largo, Curitiba e depois a Serra da Graciosa. Foi um passeio muito agradável”, afirma.

Para ele, a receptividade encontrada em Antonina demonstra que a história ganhou reconhecimento ao longo dos anos.

“O pessoal reconhece e celebra a existência da Rota 01, com esse legado e esse tesouro que o Paraná tem hoje, com um grande potencial turístico”, ressalta Daniel.

A chegada dos motociclistas também integrou o 6º Encontro de Motos de Antonina, ampliando a confraternização entre os participantes. A aventura original começou em 23 de agosto de 1923, quando Ricardo Wagner e Afonso Lange deixaram Ponta Grossa em direção a Antonina enfrentando estradas precárias, dificuldades mecânicas e praticamente nenhuma estrutura de apoio.

Em 2015, essa história foi redescoberta e voltou às estradas. Desde então, todos os anos novos motociclistas se juntam aos veteranos para repetir a experiência.

Mais do que refazer quilômetros percorridos há 103 anos, a Rota 01 mantém viva uma história de pioneirismo, aventura e paixão pelo motociclismo, transformando o caminho entre os Campos Gerais e o Litoral em patrimônio turístico e afetivo para quem escolhe conhecer o Paraná sobre duas rodas.

Redação com assessoria
Fotos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *