Antiga ferrovia entre Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul pode virar rota turística de 372 quilômetros
Projeto Caminho Rio do Peixe, apresentado em audiência pública da ANTT, propõe transformar trecho ferroviário desativado em corredor de caminhada e cicloturismo, com expectativa de atrair 200 mil visitantes por ano e movimentar mais de R$ 80 milhões na economia regional.
A antiga ferrovia que durante décadas impulsionou o desenvolvimento do Sul do Brasil poderá ganhar uma nova vocação. Em vez de transportar cargas, o trecho de 372 quilômetros entre União da Vitória (PR) e Marcelino Ramos (RS) poderá se transformar em um dos maiores corredores de caminhada e cicloturismo do país, unindo preservação histórica, turismo sustentável e desenvolvimento econômico.
A proposta faz parte do projeto Caminho Rio do Peixe, apresentado durante audiência pública promovida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em Curitiba, dentro das discussões sobre a nova concessão da Malha Ferroviária Sul. A iniciativa foi defendida pelo ex-vereador de Curitiba Jorge Bernardi, representando o presidente do Instituto Caminho Rio do Peixe (ICARP), engenheiro Sady Zago.
Segundo estimativas do instituto, a futura rota poderá receber aproximadamente 200 mil visitantes por ano, gerando um impacto econômico superior a R$ 80 milhões anuais para os municípios localizados ao longo do percurso. A proposta aposta na reutilização da infraestrutura ferroviária como ferramenta para fortalecer o turismo regional, preservar o patrimônio histórico e criar novas oportunidades de negócios.
Turismo sustentável como alternativa para preservar a história
Ao apresentar o projeto durante a audiência, Jorge Bernardi destacou sua ligação pessoal com a ferrovia e afirmou que o momento é decisivo para garantir uma nova utilização para um patrimônio que permanece desativado há cerca de três décadas em parte do território catarinense. “Nascemos às margens dessa ferrovia e acompanhamos sua importância para o desenvolvimento da região. Hoje temos a oportunidade de transformar esse patrimônio em um grande corredor turístico, preservando sua história e criando novas oportunidades econômicas para centenas de comunidades.”
Bernardi também ressaltou a trajetória da própria família ligada à ferrovia e homenageou o arquiteto Arthur Brandalize, idealizador do Caminho Rio do Peixe, além da diretoria do Instituto Caminho Rio do Peixe, liderada pelo engenheiro Sady Zago.
Segundo ele, a proposta surge em um momento estratégico, quando está sendo discutido o futuro da concessão ferroviária, o que abre espaço para definir novos usos para os trechos que não deverão mais receber operações de transporte de cargas.
Corredor unirá natureza, patrimônio e memória
O projeto prevê a preservação da antiga infraestrutura ferroviária, incorporando trilhos, estações, pontes metálicas, túneis e demais construções históricas a um grande roteiro permanente de caminhada e cicloturismo.
A inspiração vem de experiências consolidadas na Europa, onde antigas linhas férreas foram transformadas em rotas turísticas que conciliam lazer, conservação do patrimônio e desenvolvimento das comunidades locais.
Além das paisagens do Vale do Rio do Peixe, o percurso atravessa uma região marcada por um dos episódios mais importantes da história brasileira: a Guerra do Contestado, conflito ocorrido no início do século XX entre Paraná e Santa Catarina.
Para os idealizadores, esse contexto histórico amplia o potencial turístico do trajeto ao integrar natureza, cultura, memória e patrimônio em um único roteiro.
Desenvolvimento econômico para dezenas de municípios
Caso saia do papel, o Caminho Rio do Peixe deverá beneficiar diretamente diversos segmentos da cadeia do turismo.
Hotéis, pousadas, restaurantes, cafés, agroindústrias familiares, guias turísticos, empreendedores do comércio local e empresas especializadas em turismo de aventura estão entre os setores que poderão ser impulsionados pelo aumento da circulação de visitantes.
Outro benefício esperado é a redução da sazonalidade, uma vez que o cicloturismo e as caminhadas de longa distância costumam atrair turistas ao longo de todo o ano, estimulando maior permanência nos destinos e ampliando o consumo de hospedagem, gastronomia e produtos regionais.
Instituto apresenta quatro pedidos à ANTT
Durante a audiência pública, o Instituto Caminho Rio do Peixe apresentou quatro reivindicações consideradas fundamentais para viabilizar o corredor turístico.
Entre elas estão a definição, no novo edital de concessão, do destino dos trechos ferroviários que permanecerão fora das operações de carga, especialmente entre Porto União e Marcelino Ramos; a formalização da desativação definitiva desse segmento para transporte ferroviário; a criação de um mecanismo que permita a cessão gratuita da área para estados e municípios em parceria com entidades gestoras do projeto; e a preservação integral das estruturas históricas, impedindo que trilhos, estações, pontes e demais equipamentos sejam desmontados ou descaracterizados antes da decisão sobre seu futuro.
Debate seguirá em Santa Catarina e Rio Grande do Sul
A audiência realizada em Curitiba reuniu prefeitos, parlamentares, representantes do setor empresarial, lideranças sindicais e integrantes da sociedade civil dos três estados do Sul.
O processo de discussão da nova concessão da Malha Ferroviária Sul continuará nas próximas semanas, com novas audiências públicas programadas para Florianópolis (SC) e Porto Alegre (RS).
Para os defensores da proposta, este é um momento decisivo para transformar uma infraestrutura ferroviária sem uso em um dos principais produtos turísticos do Sul do Brasil. Se implantado, o Caminho Rio do Peixe poderá consolidar-se como uma das maiores rotas brasileiras de caminhada e cicloturismo, aliando preservação do patrimônio histórico, valorização cultural, turismo sustentável e geração de renda para dezenas de municípios dos três estados.
Redação com assessoria
