Moradores de Foz do Iguaçu ganham destaque na Meia Maratona das Cataratas
Edição histórica da prova teve mais de 5 mil participantes, corredores de 11 países e categoria especial para quem mora nos municípios do entorno do Parque Nacional do Iguaçu.

O esporte como uma forma de ressignificar o luto. A Maria Aparecida Pereira, de 62 anos, participou pela quarta vez da Meia Maratona das Cataratas, realizada neste fim de semana no Parque Nacional do Iguaçu. Moradora de Foz do Iguaçu há mais de 30 anos, ela garante que correr no quintal de casa tem uma energia muito diferente de todos os outros lugares em que já competiu.
“É um cenário maravilhoso, é muito lindo e muito gostoso correr aqui dentro do parque, em meio à natureza. É um privilégio. Quem não conhece ainda, tem que vir conhecer, porque vai se emocionar”, revela Maria, empolgada com o desafio que a esperava.
A entrevista aconteceu minutos antes da largada da prova de 21 km realizada no domingo (17) e talvez, justamente por isso, foi permeada de expectativa e emoção.
“A gente mora aqui, tem gente que vem de tão longe para conhecer, participar. Quem mora aqui tem que ter esse privilégio”, destaca.
Uma das provas mais esperadas pelos corredores no calendário internacional, a Meia Maratona das Cataratas tem como cenário a mata atlântica e uma vista privilegiada para as Cataratas do Iguaçu. Entre os dois dias da prova, mais de 5 mil pessoas de 11 países, e 608 cidades diferentes, correram no Patrimônio Mundial Natural.
Ao longo do trajeto, os competidores da Meia Maratona das Cataratas são levados à um verdadeiro mergulho no bioma, que inclui o contato com as quedas d’água, no rio Iguaçu, e com toda a natureza que a rodeia. Quem participa pode contar, ainda, com a torcida dos quatis, que ficam passeando em meio às árvores, e dos pássaros que sobrevoam a pista, como o tucano e o gavião real.
“Eu gosto de me desafiar. Quando eu cruzo a linha de chegada, meu Deus, é uma sensação maravilhosa de ter conseguido, sabe? Porque a gente sabe que não é fácil, mas a gente consegue, e quando você cruza a linha de chegada, não tem explicação”, revela.
Há 11 anos, Maria perdeu o pai e ficou em estado de depressão. Aos poucos, a alegria pela vida foi voltando com a ajuda dos treinos de corrida. Há mais de dez anos ela participa de um grupo, que se reúne toda semana para treinar.

São os Jaguar runner’s, ou, na tradução para o português, “corredores da onça”. Todos são moradores de Foz do Iguaçu, no Paraná. “Eu gosto muito do meu grupo, nós somos muito unidos. Meu Deus do céu, não vejo a hora de cruzar a linha de chegada”, brinca Maria.
O pai dela era o seu Zé, um dos fundadores da primeira comunidade quilombola urbana de Foz do Iguaçu, o quilombo “Horta do Zé e Dona Laíde”, localizado na bacia do Córrego Brasília, na região da Vila C. Até hoje o local é administrado pela mãe da Maria, a dona Laíde, e é conhecido pela fartura da horta orgânica, o plantio de frutas e a preservação ambiental. A comunidade é formada por descendentes de remanescentes do Quilombo Apepu, em São Miguel do Iguaçu.
Segundo Maria, o segredo para vencer uma meia maratona como esta é ir treinando aos poucos, até que a corrida se torne parte do seu dia a dia. “Saio de casa 5:30 da manhã. Comecei indo para o meu trabalho, a pé. Eu ia e voltava. Esse trajeto que eu faço dá 12 km. Aí, comecei a trotar um pouquinho, fui evoluindo, e comecei a me aventurar”, relembra.
Hoje, ela participa de vários tipos de provas e conquistou o pódio inúmeras vezes. “A corrida faz parte da minha vida. Eu me superei e é o que me fez caminhar, seguir em frente”, conclui.
Quintas de casa
Do pódio dos seus mais de 62 anos, Eleci Teresinha Camargo Denes foi uma das moradoras de Foz a completar o Desafio da Onça, categoria especial lançada neste ano, e que somou os tempos dos percursos dos dois dias da prova para definir os vencedores do Quintal de Casa. “É mágico correr aqui. Você sempre vai querer, sempre é diferente. O público, as pessoas, a energia. Eu amo correr aqui”, destaca Eleci.
Segundo ela, uma das coisas mais importantes em uma prova como essa é fazer novas amizades. “Nesses 16 anos que eu corro, fiz mais amizades do que o tempo que eu estou morando aqui em Foz. É muito bom. O meu conselho é que a pessoa deve sempre ter vontade de recomeçar na vida, porque o esporte não é só glamour, ele salva vidas. Tira as pessoas da depressão, do alcoolismo. Dá o primeiro passo, não vai ser fácil, mas depois você se acostuma e nunca mais vai querer parar”, brinca.
A categoria Clube Quintal de Casa foi criada para reconhecer os melhores corredores das 14 cidades que ficam no entorno do Parque Nacional do Iguaçu.
Os três primeiros colocados foram premiados nas categorias feminina e masculina, nos dois percursos da prova: 10,5 km e 21 km.
No pelotão masculino, o primeiro lugar ficou com Ryan Machado Maccari, que também venceu a prova de 10,5 km, com tempo acumulado de uma hora e 59 minutos. No feminino, a campeã foi Daniele Cristine Slivinski, com tempo total de duas horas e 19 minutos. Ela já havia conquistado o segundo lugar na prova de 10,5 km e somou mais um troféu.
Ao todo, 12 atletas subiram ao palco e receberam como prêmio uma anuidade do Clube Quintal de Casa do Parque Nacional do Iguaçu, que garante acesso à unidade de conservação, todos os dias, por um ano.
Por Cristiane Paião – Especial para este portal.
