O novo mapa da hotelaria nacional e a redescoberta do luxo com os desafios fiscais no Brasil
Em entrevista exclusiva, Alexandre Sampaio analisa a fragmentação do mercado em nichos estratégicos, o impacto da Reforma Tributária e a expansão dos investimentos para o interior do país
O setor hoteleiro brasileiro vive um período de efervescência e transformação sem precedentes. Com uma trajetória de mais de quatro décadas, Alexandre Sampaio, que é presidente da Federação Nacional de Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares/FBHA e diretor do CNC, é voz de liderança no turismo e observa um mercado que abandonou a ideia de bloco único para se tornar um ecossistema de nichos. Segundo Sampaio, “a hotelaria brasileira hoje é um mosaico de interesses onde cada entidade cumpre um papel fundamental para atender ao novo perfil do viajante que redescobriu o próprio país”. Essa evolução visa valorizar as belezas e o potencial interno do Brasil.
A estrutura atual é sustentada por quatro pilares: a ABIH representa a base histórica; o FOHB concentra as grandes redes; a Brasil Resorts foca no lazer de grande porte; e a Associação Brasileira de Viagens de Luxo/BLTA atende ao segmento de alto padrão, que registrou crescimento exponencial.
O nicho do luxo e o mercado no Nordeste
O segmento de luxo é o grande destaque do pós-pandemia, refletindo uma mudança drástica no comportamento do viajante de alta renda. O investimento que antes era destinado a roteiros europeus agora se volta para pousadas de altíssimo padrão no Nordeste brasileiro. Esse mercado consolidou-se com o aporte de capital nacional e estrangeiro, provando que o Brasil pode competir em sofisticação com qualquer destino global através de serviços personalizados e exclusividade.
Os riscos reais da Reforma Tributária
Apesar dos bons índices de ocupação, o setor encara com apreensão a Reforma Tributária, considerada por Sampaio o maior desafio dos próximos anos. Sobre este cenário, ele alerta que “a reforma vai nos impor custos operacionais muito grandes, pois comércio e serviços serão os setores que pagarão essa conta, enquanto a indústria será desonerada”. A nova estrutura fiscal deve elevar consideravelmente os gastos de operação, exigindo cautela dos empresários.
Esse impacto é especialmente preocupante para micro e pequenos empreendedores, que formam a espinha dorsal da hotelaria no país. A transição para o novo sistema exigirá um planejamento financeiro rigoroso para que os negócios familiares não sejam sufocados pela carga tributária e pela complexidade burocrática que começará a ser implementada gradualmente no próximo ano.
A interiorização do investimento e o agronegócio
O Brasil profundo tem se revelado uma fronteira lucrativa para novos investimentos. Cidades de médio porte recebem aportes robustos impulsionados pelo agronegócio, pela mineração e pelo fortalecimento de destinos no interior de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Muitos desses novos empreendimentos partem de famílias locais que buscam parcerias com bandeiras globais para trazer o padrão internacional e a expertise técnica necessários para profissionalizar o mercado regional.
Mão de obra qualificada e o papel do Senac
Um dos maiores desafios atuais é o descompasso entre o crescimento do turismo e a oferta de profissionais qualificados. A hotelaria enfrenta uma concorrência acirrada com a construção civil, mas busca atrair trabalhadores através da vocação de servir. Sampaio destaca a importância da capacitação e afirma que “o Senac precisa despertar no jovem o prazer de atender e de interagir com o hóspede, mostrando que a hospitalidade oferece uma trajetória de carreira e vocação que o trabalho braçal não proporciona”.
Gastronomia como tempero da ocupação
A hotelaria contemporânea entendeu que não vende apenas camas, mas experiências completas através da fusão entre hospedagem e gastronomia regional. Hotéis que investem na identidade cultural e no cuidado com a origem dos insumos apresentam os melhores resultados de satisfação e fidelização. O Brasil de 2026 consolida-se como um destino de experiências ímpares, mas a sustentabilidade dessa liderança dependerá de uma gestão estratégica, eficiência fiscal e da manutenção da excelência global em nossa hospitalidade.
Foto de capa: Alexandre Sampaio concedeu entrevista exclusiva para o www.silvanacanal.com.br, durante a realização do eventos Fórum Empresarial Viva Campos Gerais, realizado nos dias 27 e 28 de abril, em Ponta Grossa/PR.
Texto: Silvana Canal
Foto Divulgação
